Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 7 janeiro 2010.
Entre as obras literárias mais importantes para a constituição do imaginário ocidental estão as epopéias A Ilíada e A Odisséia, provavelmente redigidas no século VIII a.C. e atribuídas ao poeta grego Homero. Enquanto a primeira pauta-se na Guerra de Tróia, a segunda narra o regresso de um de seus heróis: Ulisses. Terminado o conflito, tudo o que Ulisses almeja é retornar à sua pátria, à ilha de Ithaca, onde a fiel esposa Penélope o aguarda. Entretanto, por ter ofendido o deus Posêidon, é condenado a vagar pelos mares durante dez longos anos, enfrentando toda sorte de perigos: bruxas, sereias e monstros inimagináveis. Nesse percurso, depara-se com o terrível ciclope Polifemo, a quem só consegue derrotar porque, em determinada passagem, diz-lhe que seu nome é Outis, ou seja, Ninguém em grego. A artimanha que anula temporariamente identidade e passado parece equivaler a uma negação, mas está muito mais relacionada à sobrevivência não somente do guerreiro, mas do próprio homem contemporâneo, diante de um mundo em convulsão. É justamente essa passagem, Meu nome é Ninguém, que intitula a magnífica exposição de pinturas que Lenir de Miranda (Pedro Osório, RS, 1945) apresenta até 31 de janeiro no Margs, em Porto Alegre.
Há pelo menos 25 anos Lenir vem se dedicando ao legendário personagem. Nesse ínterim, é lícito perguntar: afinal, por que Ulisses? E a resposta paradoxalmente mais simples e também mais complexa talvez seja: porque ele nunca terminou de dizer o que tinha para dizer. Ao cruzar o mundo atual, o melancólico herói continua suportando experiências traumáticas: a fadiga, a dúvida constante, a solidão. Tudo o que deseja é a segurança de sua casa. Seu percurso não é de ida, mas de retorno: o que ele procura é o seu passado. E nenhuma volta é sem dor.
Lenir nos lembra disso a todo instante. A palavra Nostos, tão freqüente em sua poética, remete-nos à nostalgia, à dor de regressar. Dor que se manifesta não somente por meio da palavra, mas da visceral pintura, de viés marcadamente neo-expressionista. Dor que habita as grandes superfícies recortadas e de justaposição caótica, as imensas áreas cromáticas, maceradas pelo carvão, bem como os arames, ferros retorcidos e plásticos queimados, fragmentos de uma vivência conturbada, de conflitos e dilaceramento, mas também de encontro.
Em sua admirável liberdade criadora, que lhe permite adotar os mais distintos materiais e procedimentos, Lenir de Miranda nos oferece uma pintura pulsante, de rara envergadura. E embora empreenda profundo mergulho no universo simbólico de Ulisses, reafirmando a atualidade de suas inquietações, de forma alguma é necessário que o espectador conheça as desventuras do personagem. A arrebatadora obra de Lenir nos reporta a essas mesmas convulsas e transformadoras vivências, incitando-nos a pensar em nossos percursos, pesares, escolhas e memórias.
Paula Ramos
Jornalista, Crítica de Arte e Professora junto ao Instituto de Artes da UFRGS
Doutora em Artes Visuais, ênfase em História, Teoria e Crítica de Arte (UFRGS, 2007)