Ninguém sobrevive incólume

No próximo domingo, dia 28 de fevereiro, encerra-se uma das melhores exposições de arte que a movimentada capital gaúcha pôde ver nos últimos tempos. Refiro-me à exposição da artista pelotense Lenir de Miranda, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, o MARGS. Meu nome é ninguém traz de volta a densidade das pinturas e dos desenhos dos anos oitenta, sem qualquer sinal de anacronismo. Há relicários. Há paisagens. Mas também há outros objetos tocados pela pintura.

Feitas de uma materialidade quase sensual, essas obras recentes de Lenir de Miranda existem para o prazer dos sentidos. São verdadeiros convites ao deleite sensorial. Aí está uma mostra de arte que não abre mão das ideias mais perturbadoras, mas que, fundamentalmente, foi concebida para ser vista. E é preciso dispor de tempo para olhar para as pinturas e para todas as outras coisas que coexistem como fatos artísticos. Se alguém, em algum momento, nas últimas décadas, acreditou na morte da pintura, estava enganado. Ou foi uma certeza passageira. Nada melhor do que observar algo que se entrega ao olhar sem desaparecer instantaneamente, como uma imagem digital qualquer. A vida no século XXI já é suficientemente ruidosa para perdemos os espaços de arte como lugares de silêncio e reflexão.

Quando eu conheci Lenir de Miranda ela já era uma artista profissional. Eu era uma adolescente. Lembro-me do primeiro contato que tive com seu trabalho. Foi no finalzinho da década de setenta do século XX, numa exposição apresentada no hall da Prefeitura Municipal de Pelotas. Eram desenhos de forte teor expressionista, em que figuras humanas subsistiam num emaranhado de linhas, feitas com caneta marrom de ponta fina. Também havia inscrições verbais. Voltei lá muitas vezes para ler “somos todos sobreviventes, meu caro”. Era exatamente como eu me sentia. Uma sobrevivente. E o contato com o pensamento poético de Lenir de Miranda, naquele momento, ajudou-me a entender que algumas pessoas precisam da arte para viver como precisam de oxigênio para respirar. Arte é muito mais do que um mero passatempo de final de semana.

Depois disso, nossas vidas se cruzaram e se descruzaram várias vezes. Como aluna de pintura, frequentei alegremente o ateliê que ficava no segundo andar da saudosa Escola de Belas Artes, e muitas vezes ouvi-a dizendo, no início de uma explicação: “minha rica flor de maracujá, presta atenção...”. Até hoje sinto saudade do cheiro da tinta e do solvente. E da maletinha com os tubos de tinta (o tubo branco era maior). E das telas que iam se transformando a cada semana. E lembro de Lenir, saltitante, falando sobre pintura moderna. Ela entrava e saía da sala, nervosamente, várias vezes. Não raro começava um assunto e esquecia de finalizá-lo. Depois voltava, explicava mais um pouco. Mas sempre ficava a sensação de que ela tinha mais alguma coisa a dizer. Era preciso conhecer Paul Cézanne. Era preciso aprender a olhar. Será que tínhamos visto mesmo aquelas sombras cheias de cor, que ficavam esmaecidas na reprodução? Decididamente, era preciso absorver a arte moderna, porque, de outra maneira, a arte contemporânea não poderia bater às nossas portas.

Algum tempo depois, quando eu já borboleteava por outras áreas como teatro e música, lembro-me de assistir a uma performance referenciada na obra do artista alemão Joseph Beuys. De novo, era Lenir de Miranda que, andorinha solitária, tentava fazer verão no burocrático ambiente universitário. Ninguém, antes dela, tinha falado em Joseph Beuys. Ninguém, antes dela, tinha sequer falado em Marcel Duchamp. Alguns de nós, alunos curiosos, estávamos sedentos por conhecer a arte do nosso próprio tempo. Mas nunca é fácil colocar os pés no presente.

Joseph Beuys. Esse nome hospedou-se de tal maneira da minha cabeça que nunca mais saiu. Passados mais de vinte anos, ainda hoje, nas aulas que ministro sobre arte contemporânea no IAD/ UFPel, Joseph Beuys é um ilustre convidado. Ninguém entende muito bem porque ele fez uma performance com o rosto coberto com mel e ouro, tentando explicar pintura a uma lebre morta. Ninguém entende a razão pela qual ele se encerrou por vários dias numa jaula com um coiote selvagem, em Nova York. Ninguém entende Joseph Beuys até que se disponha a entender. E quando a faísca do entendimento se acende, algo de transformador ocorre na relação com a obra do artista. A mesma dificuldade acontece com o trabalho de vários outros artistas contemporâneos que se mantêm ativos, apesar das adversidades.

Artistas brasileiros que não vivem nos principais centros econômicos e culturais do país, como Lenir de Miranda, sofrem duramente as conseqüências das opções artísticas e estéticas que fizeram. É muito difícil fazer arte, com auto-crítica e inteligência, e sobreviver ao seu próprio princípio ativo. Para começo de conversa, falta público preparado para a fruição da obra de arte contemporânea. Claro, isso é um problema educacional crônico. Mas também falta incentivo por parte da parcela da dita sociedade ilustrada que gosta de dizer que se interessa por arte e cultura. Para onde vão as obras de um artista, se ninguém, da iniciativa pública ou privada, se dispuser a adquiri-las?

Talento indiscutível e conhecimento profundo do próprio métier não bastam para a consagração de um artista contemporâneo. No competitivo mundo artístico de hoje, há que ter uma personalidade agressiva, chamar a atenção das pessoas mais influentes no meio (e elas existem), e expor-se ainda mais do que as próprias obras. Se o artista for introspectivo, excessivamente sensível e não se dispuser a fabricar sua própria fama, pode se tornar um personagem invisível, que vive no fundo do seu ateliê, alimentando sofrimentos. A única solução possível de sobrevivência é fazer com que a arte produzida seja mais verdadeira do que a própria vida.

Há sim, muita vida que continua existindo para além da materialidade das obras de Lenir de Miranda. E quem quiser compartilhar do interesse da artista sobre literatura, verá que os assuntos nunca são periféricos ou superficiais. Fiel a James Joyce há muito tempo, suas conversas imaginárias com o escritor e seus personagens se transmutam em gestos vigorosos e delicadas construções. Nos últimos tempos, fez um mergulho ainda mais profundo nas origens do pensamento ocidental: foi buscar em Homero as passagens míticas que se tornaram novas metáforas constitutivas do seu processo criativo.

Desde o título, Meu nome é ninguém, obviamente, joga com o dúbio significado dos termos. É a afirmação de uma negação. Mas também é uma armadilha, uma provocação, tomada de empréstimo de Ulisses ao enfrentar o terrível monstro devorador de homens. Contra a violência e a força brutas, ninguém sobrevive incólume. Só a astúcia nos salva.

Lenir de Miranda, amadurecida pela longa experiência como artista e professora, pode, como poucos, fazer uma síntese de seu pensamento poético, ao mesmo tempo em que aponta para uma mudança de rumos na sua abordagem estética. Aquelas pinturas querem respirar; estão pedindo mais parede. Aquela conversa iniciada com o poeta Mallarmé ainda tem muito para dar. Resta aos observadores atentos aguardar pacientemente para saber o que está por vir.

Neiva Maria Fonseca Bohns
Historiadora e crítica de artes visuais
Professora de Arte Contemporânea do IAD/UFPel

Texto sobre exposição de Lenir de Miranda no MARGS
Fevereiro de 2010

 

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