...Fastfoods com Poemáticos Conturbados...

A arte é um campo no qual tudo que aparentemente parece impossível, ali se torna poeticamente viável. Nada está dado a priori, sua lógica é de outra ordem. O seu jeito de fazer se encontra no ato mesmo de fazê-la, não há como buscar fora do seu espaço. O diálogo com a obra se dá em um plano mais profundo do aquele da razão, logo, faz-se necessário estar aberto para com ela conversar.

No dia a dia os fastfoods – comida rápida – são para serem ingeridos velozmente, na hora do rush. Há sempre muitas, muitas opções, mas a escolha precisa ser rápida, pois o tempo urge, há muito que fazer, ainda. Quem vem atrás tem pressa. O dia é sempre menor e a demanda maior, muitos afazeres... ah, os fastfoods de Lenir Miranda! - são metáforas poéticas do nosso cotidiano, das questões do tempo que se vive, simbolizadas pelo ato fundamental de sobrevivência, o ato de se alimentar. Ato esse tomado de uma dimensão simbólica que assusta e faz refletir. Afetam-nos!

Em Et in Arcádia ego – SOS, por exemplo, vimos uma pequena bandeja com objetos e imagens instigadoras e provocantes. Título que faz referência tanto ao universo da História da Arte, como ao da morte. Panofsky (1979, p.379 - 380) diz que a interpretação real desta frase é “A morte existe mesmo na Arcádia”. A Arcádia, parte central da península do Peloponeso, terra de pastores, cujas associações a identificavam com um paraíso de felicidade, um lugar mítico no qual os homens conviviam livremente com os deuses. Essa terra era o domínio de Pã, famosa pela sua musicalidade, mas também por sua ignorância e baixo padrão de vida. Políbio descreve-a como uma “região pobre, desolada, pedregosa e gelada, destituída de todas as amenidades da vida e quase incapaz de produzir o alimento para umas poucas cabras”. Ovídio descreve os seus habitantes como “selvagens primitivos”. Todavia Virgílio acrescentava-lhe encantos que “esta nunca possuíra: vegetação luxuriante, primavera eterna e tempo inexaurível para o amor” (p.382). Mas havia uma dissonância entre o sofrimento humano e o ambiente perfeito, dissonância que se diluía na poesia de Virgílio por meio da “mistura de tristeza vespertina e tranqüilidade” (p.383).

Mesmo lá, em terra tão distante “a morte existe” – SOS! Mas, ela também está aqui!

Uma bandeja transparente que se abre. Uma Caixa de Pandora? Pode ser. Ali estão objetos apropriados, uma maçã de isopor machucada – o pomo da Discórdia, o pomo de ouro ou a maçã de Adão e Eva? Símbolo de conhecimento que une ou que desagrega? O garfo espeta-lhe com um de seus dentes... Minúsculos dados brancos sussurram o SOS, enquanto o dado vermelho traz o número quatro, símbolo de plenitude e universalidade, forma plena de densidade. O número cinco aponta para a harmonia e o equilíbrio. Será? Vermelho e branco, como a fibrilação – contração involuntária e sem coordenação. Um relógio, uma bússola e um termômetro – tempo e espaço que se articulam. Soldados em posição de ataque, uma bala que tomba ao chão e o comprimido que tanto salva como mata. Ao abrir a caixa os males se espalharão. Felizmente o santo das causas urgentes é invocado!

Lenir disse em uma missiva que os fastfoods – são bandejas que oferecem elementos para degustar pensamentos, na hora do rush. [...] São pensamentos em ebulição, por vezes dramáticos, irônicos, com algum senso de humor negro, como se diante de tudo, esteja sendo necessária uma urgente catarse.

Junto aos FastFoods vão os Poemáticos Conturbados, que, segundo Lenir, são poemas sob a pressão dos tempos atuais, ou em que vivemos.... Nos tempos em que vivo, como fazer poéticas que não sejam conturbadas?

Entre os Poemáticos Conturbados e os Fastfoods resta a esperança, tal como em Pandora, quem sabe! Os dados foram lançados... Et in Arcádia ego...

Profª Drª Nadja de Carvalho Lamas
Membro da ABCA/AICA
Joinville, setembro de 2008


Referências:

PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. 2ªed. São Paulo: Perspectiva, 1979.

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