Quem sou eu? Quem é Ulisses?

Pode-se dizer que a memória de grandes mitos retorna na arte contemporânea ressignificada, procurando responder os grandes enigmas da vida de uma forma poética e ambígua, fazendo parte das estratégias com que o artista atual trabalha a dúvida. Os mitos arcaicos são trabalhados em seus possíveis sentidos simbólicos, buscando uma ampliação de significados. No campo da arte instaura-se socialmente o espaço do enigma na luta do homem contra a angústia da finitude. Assim, o Ulisses de James Joyce, ao refletir sobre sua vida e seus dramas cotidianos, refaz o mito grego da Odisséia de Homero, enraizado na Dublin do início do século XX. De forma semelhante, Lenir de Miranda recria o seu mito de Ulisses com um enorme peso psicológico, refletindo de maneira muito pessoal sobre as circunstâncias agressivas em que vive o homem hoje e sobre tudo o que a cerca. Entretanto, uma forte identidade com esse autor é descrita pela artista: “[...] interessante contar que li Ulisses de Joyce em 1977 e fiquei surpresa, pois não sabia nada dele, me tomou de assalto, era tudo que eu queria ler; algo profundamente estranho, admirável. Não pensei em pintar a partir dali, mas fiz uns módulos pequenos, mais por acaso, fui continuando e repetindo, quando me dei conta, ao juntá-los, eu vi que as cenas eram tão desconexas, tão diversificadas, embora formassem uma totalidade, que eu, sem pensar conscientemente, vi, de imediato, que aquilo era Ulisses/Joyce — nunca esqueço esse momento totalmente epifânico. A série começou muito tempo após ter lido Ulisses pela primeira vez”.

O livro de Joyce está organizado em capítulos, cada um deles cobrindo aproximadamente uma hora do dia e referindo-se a um episódio específico da Odisséia de Homero, tendo associado a si uma cor, uma arte, uma ciência ou órgão do corpo humano. Essa elaboração complexa e caleidoscópica do mito, associada a uma realidade prosaica e cotidiana, é retomada por Miranda no desenvolvimento de seu trabalho. Ela não tenta ilustrar as cenas do Ulisses homérico ou joyceano; sua aproximação dá-se por uma atitude que se interiorizou. Percebe-se uma adesão à literatura, que se manifesta numa espécie de mergulho/flutuamento, onde se misturam evocações de passagens que ficaram retidas no inconsciente e um ato de pintar lúcido e consciente. A artista constrói uma narrativa fragmentada, feita de partes que se colam, se sobrepõem e se justapõem, fazendo emergir de uma terra devastada o seu próprio Ulisses, como um anti-herói do nosso tempo. São memórias de guerras e erosões, que se constroem pela colagem de diferentes materiais, como arames, pedaços de metal enferrujados ou plástico. Essas sobras, muito bem articuladas ao processo pictórico, criam espaços ambíguos, deixando os rastros de uma busca pessoal que produz um significado além do horizonte visível. O uso desses elementos desgastados evoca o enigma de uma origem ali materializada, lembranças, restos ou resíduos que retornam de um lugar nas profundezas da memória. Eles abrem uma cadeia de sensações e pensamentos em busca de alguma história que se encaixe naqueles fragmentos abandonados sobre a superfície pintada. Miranda, como Joyce, é, ao mesmo tempo, universal e pessoal.

Referências como: Nostos, Seu canto, Meu nome é ninguém, Sob que guia, seguindo que sinais? apontam os questionamentos que a artista se faz a partir de uma balanceada articulação entre o conceito e a emoção dramatizada. As cores rebaixadas de sua paleta parecem querer ingressar em um universo arquetípico, onde as paisagens se confundem de forma misteriosa. Como diz a artista, em sua dissertação de mestrado, Nostos é a nostalgia de todos nós, é a vontade de regressar e a dor dessa viagem. Nostalgia que ela enfrenta com o gestual impulsivo da tinta acrílica e das linhas de carvão, expressando um processo intuitivo  e um certeiro desejo de precisão, a exigência de liberdade e a necessidade de estruturação, juntas formando um panorama inconcluso e ambíguo. O empenho de afirmar a vida contra os terrores do inconsciente é mais importante na análise da significação dessas obras do que qualquer possível proximidade das imagens. Suas significações situam-se além de intenções formais, construindo-se em territórios do imponderável, da dúvida e do mistério. Dizem de ausências que jamais serão preenchidas, de faltas de todos os tipos. Seus processos de criação buscam ultrapassar o fim e o desaparecimento, enfrentando “a grande perda”, que tanto assusta a cultura ocidental contemporânea.

As soluções empreendidas pertencem à ordem conceitual do trabalho. As idéias lançadas fisicamente sobre o suporte, retendo os traços de personagens e incidentes, exploram diversas áreas da vida, estendendo-se além de sua degradação e monotonia. Lenir de Miranda fez parte da chamada Geração 80, que reativou tendências neoexpressionistas, dando novo alento à pintura abandonada e desacreditada pela arte conceitual dos anos 70. Entretanto, sua produção e experimentação manifesta-se além da pintura em instalações e livros de artistas, que criou a partir do mítico personagem e suas viagens. Ela foi uma das primeiras a trabalhar com esse gênero aqui no sul, tendo sua obra, inclusive, participado da Documenta 12 Magazine Online, selecionada por curador alemão. Esta exposição e o livro que agora publica cumprem a tarefa de documentar um pouco do trabalho que vem desenvolvendo ao longo de mais de 20 anos, com continuada e consistente produção.

Qualquer pessoa pode desfrutar de sua obra sem nunca ter lido Homero ou James Joyce. As dúvidas/perguntas que a artista coloca reiteradamente —sob que guia, seguindo que sinais? De quem é este canto? Quem ouvirá esta pintura? — podem servir de guias em suas/nossas viagens. No entanto, é a partir dessa tradição literária que ela elabora suas reflexões e desfruta do que chama “minhas epifanias” e nos permite viver as aventuras/desventuras de um melancólico Ulisses cruzando o mundo contemporâneo.

A artista, evitando respostas definitivas ou esclarecimentos superficiais, realiza um exercício saudável da dúvida. As diversas interpretações sugeridas por suas imagens advêm dos significados simbólicos instaurados pela memória de um mito que realiza uma suspensão poética de mistérios, deixando espaço à imaginação em uma sociedade eminentemente racional.

Maria Amélia Bulhões
Professora titular do Programa de Pós-Graduação em Artes do Instituto de Artes, da UFRGS, Porto Alegre.
Doutora pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutorado na Universidade de Paris I - Sorbonne, Paris.
Pesquisadora do CNPQ sobre Arte Latino-Americana, crítica de arte, com livros e artigos em publicações nacionais e internacionais.
Porto Alegre, novembro de 2009.


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