Imaginemos que, no final de um dia, estamos todos confinados em um transporte veloz, o qual – no desígnio de atingir o seu destino final em um prazo pré-determinado – acelera nervosamente após cada parada obrigatória. É a hora do rush e estamos todos cansados, famintos e, sobretudo impacientes com o caos em nossa volta. Todavia suportamos esses trancos constantes, já que sabemos de antemão, que chegaremos por fim, a um espaço especial que nos acolherá para o nosso merecido descanso. Entre uma estação e outra, não há tempo para conversarmos longamente e nos conhecermos. Na pressa, nos mantemos todos incógnitos e superficiais para não perdermos o foco e o equilíbrio dentro desse estado de afobação geral. Não há tempo algum para coisas que exijam maior atenção como ler um livro, refletir a respeito da vida, dos outros, de nós mesmos. Não há tempo nem mesmo para apreciar a paisagem. Aliás, a rapidez que nos governa é tanta que até o cenário exterior se torna uma mancha indefinível, compacta e sempre igual por detrás dos vidros das janelas.
Esse período atroz nos fere com certo desconforto, uma vez que estamos impossibilitados de desfrutar de momentos verdadeiramente tranqüilos ou, de simplesmente vivermos um instante de introspecção produtiva e satisfatória. Ao contrário disso, essa hora de corre-corre poderá ser o momento mais estéril de nossas vidas.
Mas eis que, antes de alcançarmos o nosso destino, Lenir de Miranda surge provinda de um espaço de ebulição densa e intensa – o lugar dos pensamentos mais dramáticos e urgentes1 – e nos presenteia com pequenas bandejas contendo uma rica variedade de signos visuais e verbais; admiráveis metáforas que apreciamos entre o espanto e o deleite. Concluo assim, que finalmente algo nos salva desse tempo de rush; desse vácuo causado por uma corrida veloz imposta pelas engrenagens de uma vida cronometrada. Pois, a despeito de estarmos presos dentro dessa precipitada hora, nesse exato instante poderemos nos aprazer com breves iguarias que nos surpreenderão em cada detalhe de suas substâncias.
Os Sentidos das Obras
Lenir denomina essas obras de Fast Food2 – frutos de uma efervescência criativa que mistura referências históricas, filosóficas, cosmológicas, biológicas, musicais e literárias1 com diversos e pequenos objetos do cotidiano, e outras minúsculas sucatas. Entre uma e outra bandeja, podemos ler Eliot, Proust, Joyce, Pound, Mallarmé, Breton e William Gibson, (o inventor do termo cyberspace) - genuínas pérolas que Lenir recolheu de suas leituras preferidas e que presentemente estão impressas em etiquetas de papel, cuidadosamente justapostas às bandejas, nos oferecendo assim, rápidos alimentos espirituais.
Todos os objetos espargidos cuidadosamente nas bandejas parecem recolhidos de escombros pós-hecatombe. Os nacos de carvão mineral, além de restos orgânicos como besouros mortos, espalhados por entre os miúdos objetos, reforçam essa idéia sombria. Luvas cirúrgicas, por exemplo, que descansam no fundo de um prato de alumínio, ornadas em suas extremidades com unhas postiças em vermelho-carmim – nos lembram que a vida, em suas vaidades vãs, não demorará a se reduzir em tristes destroços.
As luxuosas referências literárias – e, muitas vezes, os próprios poemas de Lenir; os Poemáticos Conturbados3 – que se apresentam por entre esses objetos impregnados de reminiscências, sublimam esse doloroso sentimento de efemeridade e nos recolocam dentro de uma trégua compensadora que é a própria fruição da obra em seu sentido fundamental: um profundo mergulho em nós mesmos..
Raros Pensamentos, Delicadíssimos Alimento
Por momentos, ouço Lenir dizer: Cascudo na Bandeja..., aceitas?
Lenir de Miranda costuma fazer escárnio de nossas comuns pretensões e anseios de vida que requerem atitudes sensatas, associações lógicas, pensamentos coesos, procedimentos práticos. O insólito para Lenir é sempre proposital. E a vertigem é inevitável. Ela sugere com suas incomuns provocações que hoje é impossível esperarmos por um tempo promissor. E para deixar bem claro o porquê desse espírito pessimista, Lenir nos avisa: “NOS TEMPOS EM QUE VIVO, COMO FAZER POÉTICAS QUE NÃO SEJAM CONTURBADAS?”
Paradoxalmente, essas poéticas conturbadas recheadas de humor negro e presságios nebulosos, são verdadeiras delicadezas – extraordinários pensamentos visuais e verbais que amavelmente propõem novos sabores aos nossos sentidos embotados pelas amenas, insossas e até mesmo, pelas mais brutais banalidades desse mundo.
DIONE VEIGA VIEIRA
Porto Alegre, RS. Janeiro 2008.
Notas:
1. Palavras da própria artista em depoimento por e-mail, em dezembro de 2007.
2. ”Minha atual declaração, literalmente, alude numa bandeja metafórica, SEMPRE NA HORA DO RUSH, reenchida com o seguinte pensamento: NOS TEMPOS EM QUE VIVO, COMO FAZER POÉTICAS QUE NÃO SEJAM CONTURBADAS?” Lenir de Miranda, 2007.
3. Poemas Poemáticos Conturbados. Poemáticos, oriundos de pneumáticos – relativos ao ar – que funcionam com ar sobre pressão: ou seja, poemáticos por terem conteúdo sob pressão... Conturbados porque nascem dos tempos atuais. Lenir de Miranda, 2007.