Lenir de Miranda - Inquietude arrebatadora

A produção visual de Lenir de Miranda - intensa, arrebatadora e crítica - explode na tela, para além dos nossos limites físicos e emocionais. Ao estimular o imaginário e a reflexão, reprocessando mitos, identidades e realidades através de traços fortes e da intensidade das cores, a artista extrapola os espaços de um quadro, de uma performance, de um relato. Seu diálogo é com a questão humana por inteiro. O desenho, a pintura, as imagens, vídeos, poemas e instalações que nascem da sua inquietude e percepção aguçada, ao mesmo tempo em que ocupam um lugar e tomam caminhos, apontam para uma infinidade de outras formas e possibilidades de pensar e criar, sempre.

É com os olhos voltados para o perfil intenso e apaixonado dessa artista admirável que o Museu de Arte do Rio Grande do Sul recebe Lenir de Miranda e sua verve criativa. O fato de possibilitarmos que, mais uma vez, o público possa tomar contato com a efervescência da sua obra nos deixa orgulhosos. Cumprimos, com alegria, nosso papel de agentes culturais e difusores da arte gerada no nosso Estado. Em síntese, o papel fundamental de um museu, que se soma ao guardar, catalogar, documentar, é esse: mostrar o trabalho do artista e possibilitar que os diálogos aconteçam.

Ao entrelaçar as mais diversas expressões e tendências, estimulando o debate sobre a criação, proporcionamos que o artista / a arte se manifeste livre na sua incompletude para se completar ou não a partir do olhar de um outro. Como a própria Lenir diz, "uma pintura fica viva quando ela flui para dentro invadindo o que há em nossos próprios espaços íntimos. De acordo com Duchamp, o espectador projeta em seu olhar seu desejo".

Com uma trajetória marcada por passagens pela arte conceitual, sempre instigante, Lenir tem contribuído de forma inquestionável para o debate e a afirmação da arte contemporânea no sul do Brasil. Além disso, seu trabalho ocupa um espaço social importante na cultura gaúcha. Ela valoriza a nossa pintura a partir de uma linguagem plástica, ao mesmo tempo pessoal e universal, que se traduz na tela com a profundidade e a vastidão dos mares, da imaginação e do inexorável ir e vir do homem na busca do seu desejo, como tantos estudiosos e críticos da sua arte já falaram.

Cézar Prestes
Diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul
Porto Alegre, Novembro de 2009


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