Resumo:
O autor aborda neste artigo as conseqüências subjetivas e sociais do discurso da ciência e tecnologia e dos desdobramentos da ética protestante do trabalho no novo capitalismo, examinando como essas conseqüências são percebidas inconscientemente pelo artista e pelo escritor, transmitidas no processo criativo e inscritas na obra, bem como as incidências subjetivas dessas consequências podem ser lidas no caso clínico do “Homem dos Lobos” de Freud.
Palavras-chave:
incidências subjetivas, discurso da ciência e tecnologia, criação artística, ética protestante do trabalho, novo capitalismo.
"Toda arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Os que vão abaixo da superfície o fazem por sua própria conta e risco."
Oscar Wilde – O Retrato de Dorian Grey
"A ética do trabalho é a arena em que mais se contesta hoje a profundidade da experiência."
R. Sennett, 1999, p.117
"Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó." ("I will show you fear in a handful of dust.")
T. S. Eliot – Waste Land
"Depois de tudo, estarei sentada aqui, servindo chá aos amigos."
("After all, I shall sit here serving tea to friends")
T. S. Eliot – Portrait of a Lady
O título deste trabalho se inspira livremente em três autores. Do resto ao lixo, parte de Lacan em seu seminário da angústia. A corrosão do desejo, de Richard Sennett, que aborda a corrosão do caráter como conseqüência pessoal do trabalho no novo capitalismo. E a era da reprodutibilidade técnica vem do ensaio homônimo de Walter Benjamin sobre a arte.
Três perguntas norteiam este escrito. Quais são as conseqüências subjetivas e sociais do discurso da ciência e tecnologia e dos desdobramentos da ética protestante do trabalho no novo capitalismo? Como essas conseqüências são percebidas inconscientemente pelo artista, pelo escritor, e transmitidas no processo criativo e em maior ou menor medida inscritas na obra? Podemos ler as incidências subjetivas dessas consequências no caso clínico do “Homem dos Lobos” de Freud?
Freud, em seu artigo de 1907 "Atos obsessivos e Práticas Religiosas", fala que as moções pulsionais recalcadas são vividas como uma tentação e que o processo de recalcamento é apenas parcialmente bem sucedido, gerando por isso angústia. A angústia vivida em função da ameaça de retorno do recalcado ganha controle sobre o futuro na forma de uma expectativa ansiosa, ou seja, de uma apreensão em relação ao que aguarda ao sujeito no futuro.
V – Conseqüências subjetivas e sociais do discurso da ciência e tecnologia transmitidas pelo artista.
Talvez tenha sido um artista quem melhor captou a destituição do sujeito suposto saber e a promoção do objeto ao estatuto de suposto saber em seu lugar, assim como a exclusão do sujeito das relações sociais e sua coisificação, juntamente com a promoção do objeto/mercadoria/fetiche ao lugar de primazia sobre as coisas humanas. A arte contemporânea, no espírito de seu tempo, procura ir abaixo das superfícies e eliminar o quanto possível qualquer forma de representação, visando uma presentação do real.
Penso que esse artista foi Marcel Duchamp. Duchamp se colocou no olho do furacão da “refuncionalização da arte” decorrente da “emancipação da técnica dos seus fundamentos no culto” (Benjamin, 1994, p. 176) na era da reprodutibilidade técnica e seu reposicionamento como valor de exponibilidade e valor de mercado.
Quando ele inscreveu sob o pseudônimo de R. Mutt seu ready-made intitulado “Fonte” para a exposição ‘des Indépendants’, em 1917, ele chutou o penico, desafiando as convenções e pompa do mundo das artes. Causou escândalo, sua obra foi recusada e a polêmica desencadeada segue repercutindo até hoje. Duchamp colocou o dedo na ferida da crise da arte, transmitindo em sua criação provocativa as conseqüências subjetivas e sociais do discurso da ciência e tecnologia, abrindo a caixa de pandora. Na verdade, ao ser aberta, a caixa de pandora revela o estilhaçamento da aura e das tradições, que se pulverizam em todas as direções. Algumas se conservam dentro do campo da função da arte, outras seguem rumos distintos. Algo se perde na passagem do resto ao lixo.
Com seus ready-made, Duchamp apontou que a última fronteira da criação artística, da possibilidade de criação de alguma aura humana na era da produção de objetos em série industrial, se resumia à autoria intelectual, à escolha de objeto feita pelo artista, que é capaz de fazer de uma coisa outra coisa, ao retirar o objeto industrializado de seu contexto funcional ou convencionado, subvertendo seu conceito, e renomeando o mesmo com títulos indissociáveis da natureza plástico-lingüística proposta por ele.
Lenir de Miranda, artista de Pelotas, RS, criou em 2006 uma instalação e um vídeo denominados “Visão Pós-traumática do Déjeuner sur l´Herbe”, obra que foi aceita na Documenta de Kassel virtual em 2007. A artista pelotense parte da obra de Edouard Manet (Le Déjeuner sur l´Herbe, 1863) e faz uma “contextualização iconográfica” da mesma.
A obra de Manet foi inspirada em obra anterior de Ticiano (Concerto Pastoral, 1508-1509), e foi objeto de inspiração de muitas versões realizadas por diversos artistas. O Déjeuner de Manet provocou escândalo na época, e foi exposta apenas no Salão dos Recusados. O motivo manifesto dessa reação parece ter sido o fato dele colocar uma mulher nua ao lado de homens vestidos e outra mais ao fundo se banhando de camisa nas águas de um riacho. Se não bastasse isso para chocar a moral e bons costumes de seus contemporâneos parisienses, Manet pinta essa mulher nua – em relação à qual os dois homens parecem indiferentes – em primeiro plano, olhando diretamente para o espectador! Seu olhar interpela quem contempla ao quadro. Vemos na imagem o que nos olha, e o desejo que esse olhar objeto pequeno a causa fez retornar o recalcado que escandalizou os parisienses do século XIX, para além das inovações de estilo, que servem ao mesmo propósito de re-velar as formações do inconsciente.
Talvez algo mais sombrio ainda contido nessas inovações de estilo tenha chocado os parisienses de 1863, como um prenúncio dos horrores da sociedade em vias de ser veiculada pela ciência (Lacan, 2003, p. 263).
Duzentos e vinte e cinco anos mais tarde, aprés coup, na Visão Pós-Traumática do Déjeuner sur l’Herbe, ao som da Pastoral de Beethoven, Lenir de Miranda faz um narrador masculino recitar um trecho do poema Waste Land, de T. S. Eliot (1981, p. 90): Eu lhes mostrarei medo num punhado de pó. Surge em seguida o quadro de Manet, que vai sofrendo transformações progressivas com uma sobreposição digital de imagens. Inicialmente, as quatro figuras do quadro de Manet são transfiguradas para nossa época.
As transformações da imagem nos dão a impressão em câmara lenta da devastação que uma explosão nuclear produz. As figuras humanas contemporâneas têm seus esqueletos expostos, como numa imagem radiográfica, para progressivamente irem tomando as cores de um braseiro. Lentamente, tomam a aparência de restos de carne humana amorfa e sangue coagulado, com uma fita preta e amarela, indicando que tais imagens de horror devem ser proibidas ao olhar. O lixo calcinado do que foi um dia a civilização, destroços do que foi um dia a experiência do convívio humano, é interditada pela fita, tanto indicando a interdição de acesso a uma zona contaminada pela radioatividade, quanto remetendo-nos à idéia de interdição, enquanto é tempo, desse final melancólico a que leva o gozo do Outro obsceno, fora da castração simbólica.
O que sobra da bucólica e sensual cena de Manet? Apenas uma visão pós-traumática: sangue, lixo, vidas calcinadas, cinzas, objetos de uso cotidiano e de convívio queimados e quebrados, como xícaras, pires e bule de chá.
No final da obra, o narrador traz uma segunda citação de T. S. Eliot (1981, p. 64), na qual somos convidados, ironicamente, a tomar chá com os amigos!
Uma análise visa fazer de um destino um estilo. As duas citações de Eliot, “I will show you fear in a handful of dust”. E, “after all, I shall sit here, serving tea to friends” sugerem, por outro lado, dois finais possíveis para a história da humanidade. Qual destino escolheremos? Haverá um estilo possível?
JAIME BETTS
Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, RS)
Fragmento da palestra - Congresso da APPOA: A Angústia
Novembro de 2008