Le Déjeuner sur l’Herbe foi motivo de escândalo quando apareceu, em 1863, no Salão dos Recusados, em Paris. Tornou-se, com o tempo, uma das imagens referenciais da arte ocidental. Entre os motivos (do furor e, depois, da consagração), havia o fato de Edouard Manet ter levado para a tela um tema então pouco caro à pintura: o piquenique. Quase século e meio adiante, na versão de Lenir de Miranda, artista gaúcha de reconhecido percurso pela pintura, pelo desenho e pelo livro de artista, aquele piquenique na relva ganha proporções de banquete, de excessos e transbordamentos.
– Banquete dramático – ela própria sublinha.
Não que o piquenique de Manet fosse modesto: entre mulheres nuas, seminuas e homens bem-vestidos, pipocavam as alegorias – frutas, água, ostras, sapo, passarinho. No piquenique revisitado, porém, aquele despudor, despudor da cena em geral e dos personagens em particular, dá lugar a uma refrega de intencionalidades, de interferências e de referências.
Tento não confundir autor e obra. Mais ainda: tento adivinhar. Esse pequeno texto se faz às vésperas, antes mesmo da montagem do trabalho. Lenir me apresenta uma série de imagens ou imagens de imagens: pinturas, reproduções de pinturas, desenhos, projeções em computador, pequenas caixas-embalagens que vão constituir a instalação. Ela não sabe com certeza o que vai caber no Paço. Mas o passo é largo. O trabalho não se restringe ao que cabe ali. Vai além.
Lenir cita extenso rol de referências. Convida Eliot para o almoço na relva. Por fim, observa:
– O bucólico e sensual da cena de Manet transforma-se e aparece numa contextualização do traumático mundo contemporâneo. Sobras desoladas de lugares, memórias, imagens, das circunstâncias ordinárias da sobrevivência da vida do homem.
À Lenir, interessa o que se acumula, o que se derrama, o que segue adiante.
Eu mencionara um banquete, mas talvez fosse mais adequado pensar em fim de banquete (a hora em que, segundo Platão, Penia, a Miséria, seduz Poros, a Astúcia, que já tinha bebido demais). Lenir chega em busca dos restos. Os convidados já se foram, mas deixaram os cacos da sua passagem. Só a antropofagia nos une.
Porto Alegre, 2006
Eduardo Veras
Jornalista, mestre em História, Teoria e Crítica da Arte pela UFRGS