Lenir e Ulisses, Por Mail-Art

“...É tempo de recuperar o perdido! Lenir de Miranda pertence a esse período, repito, de volta ao lugar de origem. Seu projeto, colonizador pelo avesso, tem o fascínio das coisas distorcidas, dos contos e das lógicas aberrantes.

Que tem a ver a mail-art com tudo isso? Pouco ou nada! Fenômeno metalinguístico afim com a poesia visual, com a predileção pela filatelia, a xeroscopia e a colagem mas menos “literário” e mais contaminado (no Japão chegaram até a mandar pelo correio, como mail-art, um cão!), a mail-art representou a última, cronologicamente, poética utópica do nosso século dominado pela mídia. Remontar a Ray Johnson (Escola de New York) ou aos futuristas Balla, Boccioni e Marinetti ou ao movimento Fluxus, parte do “nouveau réalisme” de Pierre Restany, ou observar somente seu uso político (Clemente Padin), como semente dos movimentos de libertação; com Amnesty International, Solidarnosc, etc. São as últimas tentativas para historicizar um fermento criativo válido mais no plano sociológico que artístico.

O fenômeno mail-art aparece um pouco como o conjunto dos destroços comunicativos que vogam em torno do naufrágio mais generalizado da arte, no oceano da comunicação. Os artistas que a praticam a expensas próprias ou que, em sua maioria, a exercitavam com fervor em torno dos anos 80, receberam a marca da mail-art, qual estrela de David, no gueto da arte marginal, em relação ao mercado.

Os centros de poder da arte, galerias e museus, já há algum tempo, prepararam seus fornos crematórios para a infinita variedade de mensagens postais que se acumularam nas caixas de correio. Parece-me que o problema consiste no dilema entre permanecer fora da História e de suas transformações espirituais ou, aceitando até o confronto com estruturas que ele exprime, comprometer-se com o “establishment” da arte e com o mercado e suas regras estereotipadas.

Uma coisa é certa: a arte multimídia e a mail-art representam a forma da arte do presente, o caos magmático do nosso universo comunicativo e poético. Contudo, entrar nas histórias do poder significa ceder boa parte daquela inocência e liberdade associadas ao gesto da criação sem finalidade e, em contrapartida, aceitar as suas regras consiste em prover de utilidade racional o mundo da arte considerado, por muitos, de exclusivo domínio do artista.

O neoracionalismo constitui, na verdade, a página nova da arte global, em unidade com a arquitetura e o design, e que redescobre o papel social do artista (Ange Wandte Kunst: cromatic project). O neoracionalismo constitui, na verdade, a página nova da arte total.

O convite de Lenir de Miranda levanta uma vasta gama de problemáticas, não apenas circunscritas ao continente latino-americano.

O projeto de Lenir de Miranda, neste contexto, é original: tem o mérito de ser portador de vírus novos, de critérios desordenados com relação ao “logos” já acadêmico da mail-art.

O binômio literatura / pintura converge, no Projeto Ulisses, para uma vontade alucinante e alucinatória, sinônimo do caos freudiano; mais do que “obra aberta”, trata-se de obra “dissoluta”, destinada à dissolução, ao retorno à palavra escrita, ao texto citado.

Milão, 1988

BRUNO TALPO
professor do Liceu Artístico de Bérgamo, Itália
pintor, escultor e gráfico
pesquisador da mail-art e fenômenos de interarte no Centre Aragon

Referência Bibliográfica:

TALPO, Bruno. Catálogo Projeto Ulisses. Porto Alegre : Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS. 1988.

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