O livro de artista não é em nada semelhante ao livro de arte ou de qualquer outro livro. O livro de artista é a mudança da forma e dos materiais do livro comum para que ele se adapte à visão pessoal de seu criador. No livro de artista há a colaboração efetiva do continente com o conteúdo.
Nos livros de Lenir de Miranda a conjunção da estrutura com o conteúdo está a serviço de uma trajetória das mais inspiradas da arte gaúcha. Lenir de Miranda sempre foi livresca. Sua obra é em grande parte estruturada a partir de textos literários, como o Ulisses, de James Joyce.
Há na artista a mesma centelha do irrequieto personagem de Joyce: ambos passam por inúmeras e elaboradas aventuras, substituídos pela experiência plástica de muitos anos, do longo e laborioso caminho pelo desenho e pela pintura e sua requintada fatura.
Natural que houvesse uma síntese no trabalho da artista e que esta síntese viesse em forma de livros: estão aqui expressos em forma de objetos manipuláveis as experiências na pintura e no desenho e sua recorrente incursão pela tridimensionalidade que a artista vinha fazendo através da inclusão de objetos nas suas pinturas. Os livros de Lenir de Miranda realizam a ambição da artista de produzir objetos sensórios.
Somos exigidos em quase todos os sentidos ao mexermos com estes livros: a visão é o primeiro e essencial sentido exigido, pois estamos lidando com objetos plenos de sugestões visuais. Depois o tato: há uma riqueza assombrosa de sensações táteis nestes livros - são tecidos, papéis, objetos como porcas, parafusos, tomadas, ferragens diversas, além de superfícies impregnadas de cera e tinta. A audição é solicitada ao manipularmos as capas feitas de alumínio, além das folhas ásperas de tinta e o bater de tantos metais. O olfato também participa desta festa sensória, pois é forte e onipresente o odor de cera, óleo, parafina e tinta. Sem deixar de falar aqui das inúmeras dobras e costuras e desdobramentos que estes livros comportam. São quase inesgotáveis, verdadeiros objetos de prazer.
O livro-de-artista é uma obra visual, totêmica ou iconográfica, conforme Ricardo Minsky [Book Arts in USA. New York: Center for Book Arts, 1990). Em Lenir de Miranda o livro de artista é uma obra totêmica porque seu caráter de objeto é explicitado ao máximo e traz nos materiais com que foram compostos toda a diversidade de experiência artística contemporânea. E por fim é iconográfico, pois temos aqui uma síntese do imaginário inesgotável da artista.
No Livro do Exílio e da Nostalgia, que tem como ponto de partida a palavra, Lenir de Miranda opera uma síntese a partir do poema de Gonçalves Dias, por si só já bastante emblemático. Seu desdobramento visual é feito a partir de um rico repertório de materiais, como tela, tecido, metal, tinta, dobradiças, parafusos e folhas de árvore.
Após o elaborado passeio proposto pela artista somos alertados para a presença de um discreto olho-mágico que esconde em seu fundo um ramo de folhas secas. Neste olhar direcionado e restrito, Lenir de Miranda nos aponta para a função do artista, de que o entender é a constatação de uma intenção e que a arte começa depois disso.
Mais do que a síntese de um pensamento ecológico, esse olho mágico nos mostra a síntese do olhar artístico, um olhar reduzido aos limites da produção enquadrada nos conceitos e fórmulas da produção de imagens, mas capaz, talvez por causa desta redução, de nos fazer perceber a metafísica dos indivíduos e dos grupos e de sua interação com o meio.
Lenir de Miranda, através da linguagem e do signo, constrói a representação e representa a construção.
Porto Alegre, 1994
Paulo Gomes
Crítico de Arte,
doutorando em Poéticas Visuais, Instituto de
Artes - UFRGS, Porto Alegre - RS.
Professor do Instituto de Artes - UFRGS