...Presença fundamental na mostra é a de Lenir de Miranda, cuja trajetória, marcada por passagens pela arte conceitual, indiscutivelmente vem contribuindo para com a sedimentação do terreno da arte contemporânea no sul do Brasil. Sua metafórica instalação intitulada Post Traumatic vision of le Déjeuner sur l'Herbe (Visão pós- traumática do piquenique no bosque), é constituída por elementos perceptíveis e por elementos simbólicos e invisíveis a olho nu. Vemos o tecido, o carvão e o plástico, assim como podemos ler os textos verbais. Mas a obra é fundamentalmente feita pelo que não pode ser visto, mas pode ser pensado.
A obra de Lenir de Miranda faz referência à perturbadora pintura Piquenique no bosque (Édouard Manet, 1863), considerada como um marco inaugural da arte moderna, em que o artista apresentava uma mulher despudoradamente nua numa descontraída conversa com dois senhores bem-vestidos, em meio a um agradável recanto da natureza. Mas na instalação da artista gaúcha desapareceram os provocativos sinais de ironia da abordagem original do tema, que visava afrontar o senso comum (leia-se pensamento burguês). O que fica, como comentário ácido e doloroso das incongruências da vida contemporânea, é a cada vez mais inaceitável vitória da repressão sobre a liberdade...
Dezembro 2006
Neiva Bohns
Doutora em Artes Visuais
(Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Porto Alegre, RS)
Professora do Instituto de Artes e Design
(Universidade Federal de Pelotas, RS)