“Pintou ele verbalmente a cena para seu visitante ver?

Ele preferiu ver o rosto de outrem e ouvir as palavras de outrem pelo que a narração potencial se consumou e o temperamento cinético se aliviou.”
(Ulisses - Íthaca / Joyce)

Pintei a incerteza cena captada do mundo dentro/fora oh estes rostos na multidão o outro para que sua existência viva nas páginas narradas num palimpsesto de si entreguei um livroutro. Ulisses de mim aprendiz de sinais.

“Sob que guia, seguindo que sinais?”

Palavras e imagens são signos que explodem no caleidoscópio das cenas joyceanas.

Nostos, de todos os Ulisses, de Homero a Joyce, a todos nós, traz a ânsia de querer regressar.

Para onde é este regresso cotidiano? Para Ítaca, seio primitivo, em eterno retorno no corpo e na mente. Para o interior das ebulições cósmicas nascentes, no caos primordial do olhar que parte e chega diuturnamente, na plataforma 17, para a casa, às duas horas da madrugada. Bloomente irradia cosmos-palavras...

Nostos, a última parte de Ulisses/Joyce e penúltimo episódio (17-Ítaca), é por onde se guiam meus últimos trabalhos com pintura e livros de artista. Em Joyce, Ulisses, as palavras tramam miríades de significados e imagens multidimensionais, as quais me conduzem no aparecimento da pintura, das páginas e de possíveis outras palavras.

As palavras, em Joyce, abarcam um espaço/tempo de total plasticidade, um cubismo, que nos toma de surpresa não-linear, num caos fértil, a partir do qual visitamos mundos em infinitas expansões em nossa mente.

Somos Ulisses, cada qual em sua nave, seus sinais, com os quais retorna em seu auto-conhecimento, através de seus pensamentos, sua linguagem, suas interpretações.

agosto, 2002

Lenir de Miranda artista plástica
mestranda em Poéticas Visuais, pelo Instituto de Artes,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Porto Alegre, RS - Brasil

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