Esboço de uma moldura para as obras de Lenir de Miranda

(Treze pequenas notas sobre as relações dessas obras com as de Joyce)

  1. É possível estabelecer a dimensão das obras de L. de M.? Não, provavelmente. Não que essas obras sejam de tamanho imenso ou que se revelem em número infinito, mas simplesmente porque cada uma delas abre em seu próprio flanco uma espécie de buraco.
  2. L. de M. procede, de fato, da seguinte maneira. Ela toma um texto -- veremos mais tarde que não se trata aqui de um texto qualquer --, um texto em língua estrangeira (para ela, artista brasileira, um texto em inglês) e põe-se a sonhar com ele. Logo ela termina por decifrar um outro "texto", um texto segundo que ela tenta então integrar ao primeiro.
  3. Enxerto difícil. Até mesmo impossível. O que não significa que eu me oponha a L. de M., muito pelo contrário. Pois este texto segundo que ela se dá o trabalho de suscitar é um texto apenas metaforicamente, pois trata-se, no mais dos casos, de uma pintura acabada. Assim, L. de M. encontrou uma maneira de integrar o texto literário a uma obra de pintura, que ela pensa estar decifrando através desta última, de forma que esse texto literário venha, por sua vez, cifrar sua pintura. É assim que, para L. de M., literatura e pintura tornam-se reciprocamente as chaves uma da outra, e isso, às vezes, beira a vertigem.
  4. Pois o texto inicial escolhido por L. de M. não é um texto qualquer. Trata-se do tal Ulisses de Joyce, juntamente com, logo em seguida, o Finnegans Wake do mesmo autor. Nada menos, portanto, do que duas das obras mais ambiciosas, controversas e enigmáticas do século XX, põem L. de M. ao trabalho.
  5. Ora, Joyce começou também escolhendo um texto. No caso de Ulisses, foi aquele, mais prestigioso impossível, da Odisséia; (para seu Finnegans Wake, qualquer texto serviu, ao que parece, o mesmo propósito). Daí ele sonhou sobre o texto até decifrar, através desse texto inicial, um outro texto, um texto segundo que ele integrou ao primeiro de tal forma que tanto um quanto outro assumem, para ele, a mesma importância, e se tornam reciprocamente as chaves um do outro. Reconhece-se, aí, o processo de criação que L. de M. se esforça a reproduzir, tanto que ela tenta, de seu lado, transportar o modelo joyceano do campo da literatura àquele da pintura.
  6. Pelotas ou Porto Alegre: nada de mais afastado, aparentemente, de Dublin, da verde Erin. E no entanto: pelo toque de uma artista, L. de M., que se esfalfa a reiniciar a máquina de fábulas de Joyce, essas duas cidades do Brasil não começam, por sua vez, a tornar-se os avatares contemporâneos da antiga Ítaca ou da longínqua última Tule, ou seja, dessa cidade-labirinto que um certo Leopold Bloom, pelo toque de Joyce, pôs-se a percorrer, num certo 16 de junho de 1904, para encontrar um julgamento final muito quotidiano, quando um Doomsday [dia do juízo final] se reduz a um mero Bloomsday [dia do florescimento]?
  7. Embaixo de Ulisses, portanto, há a Odisséia: para Joyce, uma lenda precisa comanda a intriga, organiza o estilo, distribui os capítulos e os personagens, orienta os cenários. E, da mesma forma, para L. de M., embaixo da pintura, há Ulisses (quando não é Finnegans Wake): uma página lida de um desses livros (até mesmo uma frase, uma simples palavra) orienta a fatura, distribui as texturas, organiza os temas, comanda os modos de expressão e de exposição.
  8. Quer dizer que as obras de L. de M. ilustram as de Joyce? De maneira alguma. O mérito de L. de M., convém repetir, consiste em dar nova partida no motor joyceano: em fazê-lo funcionar novamente, em pintura como em literatura, ou ao menos em tentar fazê-lo.
  9. Lembramo-nos do fim de Finnegans Wake: uma longa frase termina em uma palavra (o artigo "the") que, ao mesmo tempo em que fecha o livro, se encaixa logo na primeira palavra da obra: riverrun (literalmente, corre o rio). Isto "sem fim": fin negans. Não significa, portanto, da mesma forma que ela abre e fecha, para se reabrir logo em seguida, o reino do tempo? Não mostra, portanto, a figura do Tempo, que deve se associar imperiosamente com a do rio (river) que corre (run) sem parar, e que este rio deve ser prioritariamente associado à figura da mulher, ribeirinha absoluta e verdadeira rainha das margens do rio [reine de la rive] do tempo que passa?
  10. Assim, não é de surpreender que seja uma mulher, L. de M., que reivindica solenemente o privilégio de tornar-se, pelo caminho de seu trabalho de artista, esta rainha das margens do rio que consoa, tão bem para aquele que a escuta em francês, com a abertura do livro [riverrun]? Sim: L. de M. assume essa figura soberana que orienta o fluxo das palavras e o afluxo das metáforas fluviais de Joyce, desde o leito do rio Liffey ao leito de Molly Bloom, passando por Anna Livia Plurabelle.
  11. Afluxo de palavras, fluxos de frases: assim vai a obra de Joyce. Afluxo de pinceladas e fluxos de pintura: assim vai a obra de L. de M. Para um, trata-se de um oceano de textos: exemplarmente, o Finnegans Wake. Para a outra, um mar de pintura que leva consigo tudo em seu fluxo tumultuoso. De uma saga do mar [mer] (mas também da mãe [mère]) que desvela em seu curso as identidades: exemplarmente, o Passaporte de Ulisses.
  12. Nesta obra tão particular de L. de M., de que se trata? De uma maneira de designar nossa identidade ao nomadismo, de tornar nossa identidade para sempre vagante. Pois nada permanece fixo quando cada um, como é aqui o caso, é convidado a colar sua foto de identidade sobre um fluxo, sobre um mar de pinturas, sobre um oceano de pinceladas. Assim, todo cada, pelo instrumento deste visto singular, é convidado a deslizar seu rosto sobre a figura de Ulisses, aliás de Leopold Bloom, aliás de Seja Quem For; assim, cada um se vê forçado a escorrer para a figura da humanidade inteira, através de metamorfoses e transferências que a traficaram antigamente de Ítaca a Dublin, que a transportam hoje em dia pelas ruas de Pelotas, assim como pelas de Porto Alegre.
  13. Desta maneira, a obra de L. de M.: por metáforas, metamorfoses e transferências. É assim que ela progride, tal qual um work in progress muito joyceano, sempre retomado, jamais acabado. À imagem do grandioso projeto de Finnegans Wake, a Grande Obra de L. de M. não se propõe a nada menos do que coincidir com o mundo: o mundo físico ao qual ela toma emprestado suas leis, o mundo humano cujos enigmas ela esposa, e ao qual ela entende conferir o rosto infinito dos vivos. E é assim que as obras de L. de M. são, para todos nós, um instrumento de conhecimento íntimo. Errático e enigmático à vontade, o retrato de mim mesmo que eu vejo nelas não é nunca, de fato, aquele que eu esperava.

Jean Lancri
Doutor e professor na Universidade de Paris , Sorbonne
Artista plástico - autor de L´ìndex montré du doigt
Paris, França 2003

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