Esboço de uma moldura para as obras de Lenir de
Miranda
(Treze pequenas notas sobre as relações
dessas obras com as de Joyce)
-
É possível estabelecer a dimensão
das obras de L. de M.? Não, provavelmente.
Não que essas obras sejam de tamanho imenso ou
que se revelem em número infinito, mas
simplesmente porque cada uma delas abre em seu
próprio flanco uma espécie de buraco.
-
L. de M. procede, de fato, da seguinte maneira. Ela
toma um texto -- veremos mais tarde que não se
trata aqui de um texto qualquer --, um texto em
língua estrangeira (para ela, artista
brasileira, um texto em inglês) e põe-se a
sonhar com ele. Logo ela termina por decifrar um outro
"texto", um texto segundo que ela tenta então
integrar ao primeiro.
-
Enxerto difícil. Até mesmo
impossível. O que não significa que eu me
oponha a L. de M., muito pelo contrário. Pois
este texto segundo que ela se dá o trabalho de
suscitar é um texto apenas metaforicamente, pois
trata-se, no mais dos casos, de uma pintura acabada.
Assim, L. de M. encontrou uma maneira de integrar o
texto literário a uma obra de pintura, que ela
pensa estar decifrando através desta
última, de forma que esse texto literário
venha, por sua vez, cifrar sua pintura. É assim
que, para L. de M., literatura e pintura tornam-se
reciprocamente as chaves uma da outra, e isso,
às vezes, beira a vertigem.
-
Pois o texto inicial escolhido por L. de M. não
é um texto qualquer. Trata-se do tal Ulisses de
Joyce, juntamente com, logo em seguida, o Finnegans
Wake do mesmo autor. Nada menos, portanto, do que duas
das obras mais ambiciosas, controversas e
enigmáticas do século XX, põem L.
de M. ao trabalho.
-
Ora, Joyce começou também escolhendo um
texto. No caso de Ulisses, foi aquele, mais prestigioso
impossível, da Odisséia; (para seu
Finnegans Wake, qualquer texto serviu, ao que parece, o
mesmo propósito). Daí ele sonhou sobre o
texto até decifrar, através desse texto
inicial, um outro texto, um texto segundo que ele
integrou ao primeiro de tal forma que tanto um quanto
outro assumem, para ele, a mesma importância, e
se tornam reciprocamente as chaves um do outro.
Reconhece-se, aí, o processo de
criação que L. de M. se esforça a
reproduzir, tanto que ela tenta, de seu lado,
transportar o modelo joyceano do campo da literatura
àquele da pintura.
-
Pelotas ou Porto Alegre: nada de mais afastado,
aparentemente, de Dublin, da verde Erin. E no entanto:
pelo toque de uma artista, L. de M., que se esfalfa a
reiniciar a máquina de fábulas de Joyce,
essas duas cidades do Brasil não começam,
por sua vez, a tornar-se os avatares
contemporâneos da antiga Ítaca ou da
longínqua última Tule, ou seja, dessa
cidade-labirinto que um certo Leopold Bloom, pelo toque
de Joyce, pôs-se a percorrer, num certo 16 de
junho de 1904, para encontrar um julgamento final muito
quotidiano, quando um Doomsday [dia do juízo
final] se reduz a um mero Bloomsday [dia do
florescimento]?
-
Embaixo de Ulisses, portanto, há a
Odisséia: para Joyce, uma lenda precisa comanda
a intriga, organiza o estilo, distribui os
capítulos e os personagens, orienta os
cenários. E, da mesma forma, para L. de M.,
embaixo da pintura, há Ulisses (quando
não é Finnegans Wake): uma página
lida de um desses livros (até mesmo uma frase,
uma simples palavra) orienta a fatura, distribui as
texturas, organiza os temas, comanda os modos de
expressão e de exposição.
-
Quer dizer que as obras de L. de M. ilustram as de
Joyce? De maneira alguma. O mérito de L. de M.,
convém repetir, consiste em dar nova partida no
motor joyceano: em fazê-lo funcionar novamente,
em pintura como em literatura, ou ao menos em tentar
fazê-lo.
-
Lembramo-nos do fim de Finnegans Wake: uma longa frase
termina em uma palavra (o artigo "the") que, ao mesmo
tempo em que fecha o livro, se encaixa logo na primeira
palavra da obra: riverrun (literalmente, corre o rio).
Isto "sem fim": fin negans. Não significa,
portanto, da mesma forma que ela abre e fecha, para se
reabrir logo em seguida, o reino do tempo? Não
mostra, portanto, a figura do Tempo, que deve se
associar imperiosamente com a do rio (river) que corre
(run) sem parar, e que este rio deve ser
prioritariamente associado à figura da mulher,
ribeirinha absoluta e verdadeira rainha das margens do
rio [reine de la rive] do tempo que passa?
-
Assim, não é de surpreender que seja uma
mulher, L. de M., que reivindica solenemente o
privilégio de tornar-se, pelo caminho de seu
trabalho de artista, esta rainha das margens do rio que
consoa, tão bem para aquele que a escuta em
francês, com a abertura do livro [riverrun]? Sim:
L. de M. assume essa figura soberana que orienta o
fluxo das palavras e o afluxo das metáforas
fluviais de Joyce, desde o leito do rio Liffey ao leito
de Molly Bloom, passando por Anna Livia Plurabelle.
-
Afluxo de palavras, fluxos de frases: assim vai a obra
de Joyce. Afluxo de pinceladas e fluxos de pintura:
assim vai a obra de L. de M. Para um, trata-se de um
oceano de textos: exemplarmente, o Finnegans Wake. Para
a outra, um mar de pintura que leva consigo tudo em seu
fluxo tumultuoso. De uma saga do mar [mer] (mas
também da mãe [mère]) que desvela
em seu curso as identidades: exemplarmente, o
Passaporte de Ulisses.
-
Nesta obra tão particular de L. de M., de que se
trata? De uma maneira de designar nossa identidade ao
nomadismo, de tornar nossa identidade para sempre
vagante. Pois nada permanece fixo quando cada um, como
é aqui o caso, é convidado a colar sua
foto de identidade sobre um fluxo, sobre um mar de
pinturas, sobre um oceano de pinceladas. Assim, todo
cada, pelo instrumento deste visto singular, é
convidado a deslizar seu rosto sobre a figura de
Ulisses, aliás de Leopold Bloom, aliás de
Seja Quem For; assim, cada um se vê
forçado a escorrer para a figura da humanidade
inteira, através de metamorfoses e
transferências que a traficaram antigamente de
Ítaca a Dublin, que a transportam hoje em dia
pelas ruas de Pelotas, assim como pelas de Porto
Alegre.
-
Desta maneira, a obra de L. de M.: por
metáforas, metamorfoses e transferências.
É assim que ela progride, tal qual um work in
progress muito joyceano, sempre retomado, jamais
acabado. À imagem do grandioso projeto de
Finnegans Wake, a Grande Obra de L. de M. não se
propõe a nada menos do que coincidir com o
mundo: o mundo físico ao qual ela toma
emprestado suas leis, o mundo humano cujos enigmas ela
esposa, e ao qual ela entende conferir o rosto infinito
dos vivos. E é assim que as obras de L. de M.
são, para todos nós, um instrumento de
conhecimento íntimo. Errático e
enigmático à vontade, o retrato de mim
mesmo que eu vejo nelas não é nunca, de
fato, aquele que eu esperava.
Jean Lancri
Doutor e professor na Universidade de Paris ,
Sorbonne
Artista plástico - autor de L´ìndex
montré du doigt
Paris, França 2003
voltar