O Tempo, O Kronos, Terrível Presença que Jamais se Detém

Anotações, analogias e reflexões sobre o trabalho de Lenir de Miranda

AUTOBIOGRAFIA - Livro-de-Artista, ou o registro, na matéria, do pensamento e da ação do homem.

No trabalho de Lenir estamos diante e dentro do processo.

A materialidade, aqui, tem seus significados e suas intenções. Tudo parece precário e efêmero e por isto, se nos depara instigante, cogitador.

As diferenças da matéria, estabelecem os diálogos/com/vivências. Nos damos conta de nossa instabilidade, precariedade e finitude.O que nos salva é que continuamente nos reinventamos. Na saga da superação. O artista é o criador de outras realidades: as virtuais. O artista tira o homem do seu cotidiano para que se perceba uma outra dimensão.

“A pintura é uma atividade mental”, Leonardo da Vinci. É preciso perceber a outra dimensão. Que surge da interpretação que o artista faz da realidade.

O que surge, da paixão de Lenir pela ação do pensamento humano, é o resultado plástico que ela concretiza com os materiais da linguagem plástica, que transmitem e guardam as características de suas naturezas. São os metais, os materiais, que melhor conduzem a energia.

O comparecimento destes elementos, na obra, levam o homem a perceber que todo o processo anímico é decorrente de uma fonte de energia. Tudo e todos estão comprometidos com a energia, desde a mais ínfima partícula do átomo até a imensidão do Universo.

Perceber e lidar com este processo, é estar dentro e fora do fenômeno arte.

É agir e refletir. Executar e analisar. O homem começa, pelas suas necessidades, a construir os seus objetos e preparar a sua sobrevivência. Desencadeia-se um processo de ação e de tempo. Inicia-se um longo trans/formar-se: homem/tempo.

São as obras que fazem as pontes de ligação através do tempo, entre os seres. Ver e tocar o que outros viram, tocaram e executaram, faz-nos sentir as presenças que tanto amamos. Desde os utensílios primeiros. Se nos concentrarmos no sentido de anular o tempo, estaremos no tempo de outros, e isto engrandece nossa percepção. A música, a dança, o teatro, a pintura, dentre outros, são filhos de Kronos. É o eco, do que foi, que nos faz sentir que o som já aconteceu. É a vibração das notas finais, emitidas. Vibrações no espaço. O eco, que nos marca no espírito, o efêmero, dando lugar à reflexão. É buscando entender que filosofamos.

É filosofando que começamos a compreender, isto é, apoderar-se das verdades. É aqui que começamos a refletir. Refletindo começamos a cogitar.

A percepção da sensação (o sentir) da ação dentro do espaço/tempo: uma pintura, um livro-de-artista.

Porto Alegre, 28/10/96

Gonzaga
Escultor e Prof. Titular do Instituto de Artes da UFRGS
Mestre pela Univ. Complutense de Madri

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