Volúpia do fazer, vertigem da comunicação mais ampla. Puro apelo sensorial, enigma conceitual. Tato e olfato pontuando a visão das formas que se mostram e escondem multiplicadas em mil conotações. Livro pede leitura. Dobras, dobradiças e ferragens constroem simulacros do próprio labirinto-engrenagem em que a vida se organiza como memória de vivências, sensações, conceitos. A significação perseguida como absoluto desfaz o cognoscível abrindo a possibilidade de um mais-conhecimento que não está na letra, na linha, na página, no livro. Não há livro, não há palavras, não há isto ou aquilo, mas muito mais. A arte despoja o signo de seu significado permitindo-lhe o vôo em busca da mais-significação. Verdadeira leitura da possibilidade sem fim. Tudo é livro. Tudo é leitura, releitura, cruzamento de vozes, sussurros, insinuações, tons surdos e acordes estridentes. Diálogo tenso. Denso mistério embebido no íntimo e silencioso prazer da relação entre o espectador e os signos que o seduzem.
Tudo nos livros de Lenir de Miranda é absolutamente livro, é absolutamente arte. Intuição plástica em que forma e idéia conseguem aquela rara e feliz integração que libera e atiça a nossa imaginação para aventura da fruição estética. Contêm e revelam o gesto febril com que a artista os constrói como puras metáforas de livro. Continente e conteúdo de nós e do mundo. Objetos que possuem a quem os possue, espelhos em que podemos ver muito, muito mais do que na opacidade do cotidiano.
Porto Alegre, outubro 1994
José Luiz do Amaral
professor e crítico de arte